22 de fevereiro de 2017

A Sinfonia Inacabada de Schubert: qual o mistério?

Retrato de Franz Schubert (1827)
por Anton Depauly, 
anteriormente atribuído a Joseph Mähler
Sinfonia nr. 8 em si menor, D. 759, de Franz Schubert (1797-1828), conhecida como Inacabada, causa uma série de dúvidas ao grande público, além de ter vinculadas a ela algumas lendas que tentam explicar os motivos pelos quais a sinfonia não foi terminada.

A confusão começa com a numeração, pois, apesar de comumente ela ser aceita como a "oitava", alguns preferem chamá-la de "sétima". Isso porque a 7a. de fato (D.729), datada de 1821, existe apenas esquematizada, e só o início do primeiro movimento foi completamente orquestrado. Existem algumas tentativas de finalização desta obra, mas, em geral, ela só é lembrada em termos de numeração. Por isso, os que a consideram como uma obra chamam-na de sétima, e os que não a consideram assim, simplesmente pulam a contagem, e chamam a Inacabada de sétima.

De qualquer modo, a grande polêmica sobre a Inacabada gira em torno dos movimentos que faltam. Teriam sido eles escritos ou não?

Durante muito tempo acreditou-se que o terceiro e o quarto movimentos desta sinfonia haviam se perdido após a morte de Schubert. Mas essa hipótese caiu por terra com o conhecimento do fato de que Schubert chegou a esquematizar o terceiro movimento, um Scherzo, e até mesmo orquestrou alguns compassos dele, mas simplesmente não continuou.

Outra polêmica, então, surgiu: por que Schubert não concluiu a sinfonia? Algumas pessoas já acreditaram na história de que ele não o fez por não ter conseguido criar nada que estivesse à altura dos soberbos dois primeiros movimentos. Entretanto, isso simplesmente não nos soa verossímil, considerando a capacidade técnica e criativa de um compositor do status de Schubert. O que parece mais evidente é que ele simplesmente não se interessou por continuar, voltando suas energias para outros projetos. Na verdade, considera-se grandemente a possibilidade de Schubert ter entendido que sua sinfonia deveria mesmo não ir além dos dois movimentos, e tê-la considerada, posteriormente, acabada daquela forma. Isso faz sentido quando consideramos a seguinte história:

Schubert compôs essa sinfonia em 1822. Em meados do ano seguinte, ele solicitou a seu amigo Anselm Hüttenbrenner que encaminhasse seus manuscritos à Sociedade de Música de Graz, em agradecimento por ter sido por ela eleito como um membro honorário. Entretanto, por motivos desconhecidos, os manuscritos não foram entregues à Sociedade de Música, e desapareceram. Somente em 1865, 37 anos após a morte de Schubert, os manuscritos foram descobertos, e prontamente uma estréia da obra foi organizada e realizada em Viena. Já então começaram as especulações sobre a sinfonia.

De imediato, acreditou-se que o Entreato em si menor da música incidental para Rosamunde teria sido pensado por Schubert como um finale para a sinfonia, e ele foi executado juntamente com ela em sua estréia. Isso, porém, não passa de conjectura.

Os dois movimentos da Sinfonia Inacabada correspondem a uma grande inovação na obra sinfônica de Schubert, com sua extrema expressividade e dimensões alargadas em relação a suas sinfonias anteriores. Isso pode ter soado ao próprio Schubert como um indicativo de que sua obra dificilmente seria executada, o que poderia tê-lo desanimado a concluir os outros dois movimentos. Mas essa é apenas outra hipótese que, apesar de fazer sentido, não tem como ser provada.

Se Schubert desistiu de concluir sua sinfonia, por qualquer motivo, ou se ele de fato considerou-a finalizada com seus dois movimentos, no fim das contas são possibilidades que, provavelmente, nunca serão comprovadas. O fato é que desde sua estréia esta sinfonia rapidamente estabeleceu-se como uma das mais executadas e queridas do grande público.

Existem ao menos duas boas tentativas de completar a sinfonia de Schubert. Uma delas data de 1928, realizada por Frank Merrick, e a outra, mais recente, é a de Brian Newbould. Esta última é baseada em rascunhos de Schubert para o Scherzo, e inclui o Entreato de Rosamunde como finale. Ambas as tentativas, porém, não foram incorporadas aos concertos, permanecendo como curiosidades.

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Esse texto surgiu há uns 10 anos ou mais, em uma comunidade do falecido Orkut dedicada a Schubert. Em 2008 eu o adaptei e publiquei em um blog meu daqueles tempos, que também foi para o limbo. Considero esse texto como uma boa explanação geral sobre a Inacabada, por isso resolvi republicá-lo neste blog hoje. Espero que gostem, e que seja útil. Abraços!

25 de outubro de 2014

Beethoven era negro?

Beethoven aos 30 anos
(gravura de J. J. Neidl a partir de um
desenho, hoje perdido, de G. E. Stainhauser)
Depois de muito tempo, volto ao DLQS pra escrever sobre mais um dos mitos que se propagam no universo da música erudita, e mais um que diz respeito a Beethoven. Fui hoje chamado a opinar numa postagem do Facebook que trata do assunto, e depois de responder brevemente lá penso que essa lenda mereça uma desconstrução informal um pouco mais longa. 


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Não foi a primeira vez que deparei com essa afirmação de que o compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827) foi, na verdade, negro. Mesmo no Facebook já tinha esbarrado no texto que li hoje, mas nem tinha me incomodado em ler, justamente porque já ouvi falar disso outras vezes. Hoje, porém, resolvi ler e gastar um tempo maior pesquisando um pouco sobre o assunto, e refutando essa ideia sem fundamento. 


Para o bem da informação, transcreverei abaixo o texto que circula pelo Facebook e por outros sites na internet. Esse texto encontrei NESTA postagem:

Beethoven era negro. 
Mas acho que todos vamos continuar a representá-lo super caucasiano, né? 
O nome disso é whitewash, quando alguém não-branco é "embranquecido" pela História, especialmente quando tal figura é importante ou soberana. Mas isso a gente também vê no cinema, que embranquece personagens o tempo todo. 
"Frederick Hertz, German anthropologist, used these terms to describe him: ‘Negroid traits, dark skin, flat, thick nose.’Emil Ludwig, in his book ‘Beethoven,’ says: ‘His face reveals no trace of the German. He was so dark that people dubbed him Spagnol [dark-skinned].’Fanny Giannatasio del Rio, in her book ‘An Unrequited Love: An Episode in the Life of Beethoven,’ wrote ‘His somewhat flat broad nose and rather wide mouth, his small piercing eyes and swarthy [dark] complexion, pockmarked into the bargain, gave him a strong resemblance to a mulatto.’ 
Minha tradução livre: 
O antropólogo alemão Frederick Hertz usou os seguintes termos para descrevê-lo: "traços negróides, pele escura, nariz chato e grosso". Emil Ludwig, em seu libro "Beethoven", diz: "Seu rosto não revela nenhum traço alemão. Ele era tão escuro que as pessoas achavam que ele era espanhol moreno."Fanny Giannastasio del Rio, em seu livro "Um Episódio na Vida de Beethoven", escreveu "Seu nariz largo e sua boca bem grande, seus pequenos e penetrantes olhos e sua compleição morena, dava a ele uma forte semelhança a um mulato"
As imagens são da máscara mortuária do compositor. 
O whitewash de Beethoven: http://ow.ly/Dbq1dWhitewash da História egípcia: http://ow.ly/Dbqbc(Ambos em inglês)



Primeiramente, já um claro erro: essas imagens acima, que acompanham a postagem, não são da máscara mortuária de Beethoven, mas sim de uma máscara que foi tirada do compositor vivo, em 1812. Observa-se que seu rosto, na máscara mortuária, está bem mais magro e marcado:





Claro que a máscara errada não faz parte da argumentação errada, mas considerei importante apontar o erro. Voltando ao texto, como facilmente se observa, a base da argumentação consiste unicamente em relatos de contemporâneos sobre as características físicas de Beethoven, especialmente no que se refere à cor da pele, ao nariz largo e à boca grande. Tudo isso é verídico, e nada é novidade. Por esses relatos e por alguns retratos menos estilizados da época sabemos que Beethoven tinha sim um visual diferenciado da média de seus conterrâneos, e mesmo impactante, especialmente por nascer e viver em um ambiente pronunciadamente caucasiano. Seu porte atarracado e robusto, a pele morena, traços marcantes e cabelo desgrenhado causavam espanto e despertavam o imaginário dos contemporâneos, especialmente porque junto com isso tudo aparecia uma personalidade forte, mais ainda depois da virada do século, quando começou a evoluir seu problema de audição. As comparações que faziam de Beethoven a mouros e espanhóis eram comuns, tanto que o prédio onde ficava seu último apartamento, no qual ele morreu, ficou conhecido como Schwarzspanierhaus ou A casa do espanhol negro, e pelo que consta foi demolido em 1903. Abaixo uma foto da construção, e a mesma representada numa tela de Franz Stöber, que retrata o cortejo fúnebre de Beethoven:


Schwarzspanierhaus, foto da década de 1870

Cortejo fúnebre de Beethoven, tela de F. Stöber

A ideia de que Beethoven fosse negro sempre me pareceu bastante absurda por si mesma, simplesmente pelo fato de contrariar toda a historiografia do compositor. Por isso nunca dei maior importância pra ela, até hoje, quando uma ex-aluna pediu minha opinião sobre o post que compartilhei acima. Então decidi fazer uma breve pesquisa. 

Não foi necessário muito esforço de minha parte para encontrar o artigo "Black Beethoven and the Racial Politics of Music History" de Nicholas T. Rinehart (Transition, Issue 112, 2013, p. 117-130). Um artigo não muito breve, em inglês, mas fiz questão de lê-lo. E recomendo muito pra quem se interessar, pois ele faz um histórico sobre essa questão, mostra os principais autores que já fizeram estudos sérios sobre isso e, inclusive, menciona esse texto que incluí no começo da postagem - o qual já circula na internet há tempos -, e o refuta de várias maneiras. O resumo do artigo é: a ideia da negritude de Beethoven não é de hoje (na verdade já tem perto de um século), já foi abordada diversas vezes, mas nunca apresentada com qualquer tipo de evidência que comprovasse a tese, sempre baseando-se unicamente nos relatos dos contemporâneos sobre sua aparência morena e nos traços não-germânicos do compositor. Ou seja, uma "forçação de barra". 

O artigo explica que esse assunto, apesar de antigo, nunca esteve presente nos debates sérios sobre Beethoven. Claro, afinal não passa de uma espécie de boato, sem qualquer substanciamento. O curioso é constatar o quanto esses boatos - que se transformam em lendas e mitos - ganham força por conta de seu apelo para o incomum, o desconhecido, o poético etc. Esse e outros tantos mitos circulam por aí como vírus, e facilmente infectam os desavisados. As pessoas tendem a acreditar, realmente, em tudo o que está escrito, e mais ainda em tudo o que soa apelativo. 

A explicação da "morenice" de Beethoven, segundo Rinehart, se deve ao fato de seus antepassados, por parte de mãe, terem raízes na região de Flandres, a qual esteve sob algum tempo sob o comando da monarquia espanhola, e daí a conexão dos espanhóis com os mouros do norte da África provavelmente fomentou alguma relação pessoal de algum antepassado de Ludwig com algum mouro, ou espanhol (?), e esses genes caminharam na família até chegar a ele. E sabemos que os genes são misteriosos, algumas pessoas herdam características de antepassados mais distantes às vezes, nem tudo é linear quando se trata de genética. Essa é uma explicação plausível, e a única que faz sentido e pode explicar as características físicas de Beethoven.

Sobre esse assunto todo fiquei ainda pensando: se Beethoven fosse realmente negro algum de seus pais deveria ser claramente negro, não? E seus irmãos, não deveriam apresentar características semelhantes? Ou estaríamos supondo também que Beethoven foi adotado? Se nada disso for considerado, vem a teoria da "lavagem branca" (whitewash) mencionada no post acima. A gente sabe que isso acontece mesmo, em algum grau, mas haveria motivos para fazer uma whitewash nos retratos dos pais de Beethoven antes mesmo de saberem que um filho deles seria tão proeminente? Essa "lavagem" não é destinada só a grandes nomes? Ou foi posterior à vida de Beethoven o branqueamento dos retratos de seus parentes, para legar à história uma iconografia bem... "lavada" ou "branqueada"? Tantos questionamentos para mostrar que quando levamos uma coisa sem sentido pra frente com indagações tudo vai ficando cada vez mais absurdo, e cada vez mais parecendo uma boa teoria da conspiração. Alguns retratos de parentes de Beethoven abaixo (na sequência: o avô, o pai, a mãe, o irmão e o sobrinho). Tire suas próprias conclusões:








Nenhum deles me parece ter possuído qualquer traço ou característica que os inclua na raça negra, o que torna ainda mais estranho considerar um legítimo negro no meio dessa família. E nos faz pensar também que mesmo as características mouras de Ludwig tenham sido razoavelmente tênues, considerando a distância e a miscigenação, provavelmente mais sutis do que nossa imaginação constrói nesse momento, no qual discutimos justamente este ponto. 

Dito tudo isto, pode haver esse questionamento: por que tanto incômodo com um Beethoven negro?
Retrato de Beethoven, autoria anônima
Bem, se ele realmente tivesse sido negro, creio que não haveria um incômodo real, a não ser por parte de quem é realmente racista, mas essa é uma outra questão. O incômodo que tudo isso causa tem a ver com a deturpação da realidade. O que incomoda é a tentativa de imputar a uma personalidade características que ela não possuiu, com objetivos questionáveis, para reforçar uma causa ou simplesmente para criar uma teoria chocante. 

No primeiro caso, penso que absolutamente nenhuma causa séria precise desse tipo de deturpação histórica para se fortalecer ou legitimar. Tentar transformar Beethoven em negro é tão errado quanto tentar transformar Bach em homossexual ou Brahms em mulher. Os negros, os gays e as mulheres, mesmo lutando pelo fortalecimento de seus direitos em causas sólidas e válidas, não precisam dessas deturpações. Pois a raça negra é tão superior quanto qualquer outra, homossexualidade é tão normal quanto qualquer outra, e as mulheres são tão capazes quanto os homens. E se há conquistas sociais a serem alcançadas, se há injustiças históricas a serem corrigidas e direitos a serem conquistados, nada disso será conseguido com uma política baixa e enganosa como esta, de deturpar personagens históricos, sejam personalidades ou não. Se o objetivo for o segundo (e provavelmente é o caso aqui), criar e propagar uma teoria impactante a partir da deturpação da realidade é algo igualmente desprezível, e contra isso a ciência e a objetividade devem agir esmagadoramente.